sexta-feira, 21 de setembro de 2012

Qual a alternativa?




Se todos – à esquerda e à direita – criticam acerrimamente a ousadia do governo, quando se trata de propostas alternativas o silêncio é igualmente universal. É pena.

A ideia geral com que fica quem segue o “caso TSU” de forma isenta é que, de um ponto de vista político, o Primeiro-Ministro geriu a situação de forma desastrosa: falta de união entre os vários ministros, fraca capacidade de comunicação, etc. Mas se todos – à esquerda e à direita – criticam acerrimamente a ousadia do governo, quando se trata de propostas alternativas o silêncio é igualmente universal. É pena.

A regra principal neste debate deveria ser:
1. Quem critica, que apresente uma solução alternativa.
2. A solução não pode ser tão vaga como “que se lixe a troika”.

Vamos então falar de soluções alternativas. Repudiar a dívida? Se é isso que querem dizer com “que se lixe a troika”, pois que tenham a coragem de o dizer. A repudiação da dívida resolveria o problema do défice no curto prazo, mas teria consequências muito negativas no médio prazo (vide, por exemplo, o caso da Argentina).

Sair do euro? Com a excepção de uns poucos economistas, não vejo ninguém defender esta solução. Na minha opinião, a saída do euro não resolveria nada – pelo contrário, criaria ainda mais problemas. Aliás, há aqui uma certa ironia: os poucos economistas que defendem a saída do euro lembram que, dispondo Portugal do Novo Escudo, teríamos um óptimo instrumento – a desvalorização cambial – para evitar o desequilíbrio externo; mas o efeito da desvalorização cambial é justamente diminuir os salários reais, a raiz dos protestos contra a medida do governo!

Excluindo estas alternativas mais drásticas, ficamos perante a realidade simples e crua: durante anos, gastámos mais – e aqui falo do país, no seu todo - do que produzimos; chegou a altura de pagar a conta.
Por muito desprezo e ódio que os portugueses tenham pela “engenharia financeira em curso”, a verdade é que a crise da dívida soberana e tudo o que ela implica para o sector bancário e para o financiamento das empresas é algo que tem de ser resolvido com disciplina fiscal. Que alternativas devermos escolher: despedir funcionários públicos em massa? Aumentar o IVA? Cobrar propinas?

Não é demasiado tarde para o governo reconhecer os erros de comunicação que acumulou ao longo de meses, especialmente nos últimos dias; e para os portugueses compreenderem que: em primeiro lugar, em economia, o que está em questão não é tanto decidir se uma medida é boa ou má, mas sim se é melhor ou pior que a alternativa. Depois, que quando gastamos mais do que produzimos, cedo ou tarde a factura chega e, terá de ser paga....

domingo, 16 de setembro de 2012



Portugal vive há muito tempo acima das suas possibilidades. O Estado gasta mais do que recebe.

E embalados pelo exemplo, ou até pelo incentivo do Estado, muitas pessoas e muitas empresas habituaram se a fazer o mesmo. Deixamo-nos envolver numa ilusão, para não dizer numa mentira. Por outras palavras, temos um défice de verdade na sociedade portuguesa!

Desenvolveu-se uma cultura individualista, desligada do bem comum. A quebra da natalidade, por exemplo, não nasceu com a crise. Pelo contrário: foi nos melhores anos da economia que muitos portugueses optaram por ter menos filhos. Inebriados pelo aumento do bem-estar, poucos quiseram pensar nas consequências. Os resultados estão à vista. Menos filhos significam, por exemplo, menos alunos, menos escolas, menos emprego para professores; significa, a prazo, menos população activa, menos contribuições para a segurança social e menor capacidade do Estado para pagar reformas a quem toda a vida trabalhou!!!

Dito de outro modo: a crise actual é o resultado de uma cultura e de um certo modo de vida. Medidas como aquelas que o Governo anunciou podem resolver um aperto financeiro momentâneo, mas se não mudarmos hábitos e atitudes, rapidamente voltaremos ao mesmo.

Em todo o caso, o Governo tem aqui uma especial responsabilidade. Deve tomar as medidas necessárias, mas com algumas condições: explicar aos portugueses com clareza e verdade, isto é, sem confusão nem distorção, as grandes decisões que os afectam; e promover um consenso nacional e social que mobilize os cidadãos para a reabilitação do país; sem prejuízo de introduzir as reformas estruturais que se exigem, contra todos os interesses e movimentos corporativistas que reinam na nossa sociedade!

Finalmente, a coragem de um governo não se mede apenas pelas medidas que toma. Para o Governo recuar, negociar e ceder, é preciso coragem e uma enorme maturidade. E o mesmo se pede à oposição. Protestar é fácil e, seguramente, popular. Mas a cada crítica é necessário juntar uma proposta; mostrar uma alternativa; explicar uma diferença.

Na vida pública portuguesa sobra a propaganda; e falta a verdade. Verdade nas propostas, verdade nas críticas, verdade nas alternativas. Propor e exigir – a todos – a verdade, talvez seja o melhor caminho para começar a mudar de vida. Porque sem mudar de vida não há esperança que resista à crise!!!.....

sexta-feira, 23 de dezembro de 2011

Boas Festas



Nesta quadra que se aproxima, faço votos de que todos os que me acompanham possam ter um Feliz Natal na presença daqueles que mais estimam.


Faço ainda votos de que o ano de 2012 possa ser melhor que o ano prestes a findar, encerrando em si mesmo muitas Alegrias e Saúde!


Paulo Gomes.

sexta-feira, 16 de dezembro de 2011

Arriscar



O natural entusiasmo das crianças devia ser conta­giante.


É que elas avançam com os olhos arregalados para a realidade, sem barreiras nem esquemas de defesa. Ficam - por assim dizer - disponíveis para acolher tudo o que se passa. Confiam sem problemas e, quando não sabem, perguntam.~


Pelo contrário, a tendência dos adultos é descon­fiar e defender-se. Muitos vivem como quem leva o cotovelo diante dos olhos para evitar golpes de­sagradáveis ou inesperados da vida, retêm da rea­lidade apenas o que lhes convém e são manhosos perante certas evidências: preferem fechar-se no seu pequeno espaço e recusam surpreender-se com as sugestões que vida traz.


Assim se joga a nossa liberdade: ou (primeira hipó­tese) nos entrincheiramos em esquemas e jogamos à defesa; ou (segunda hipótese) arriscamos como as crianças, de coração simples e olhar escancarado. O mistério do Natal terá sérias dificuldades em flo­rescer na primeira hipótese!

quinta-feira, 15 de dezembro de 2011

Excedentes...de dívidas!

Pedro Passos Coelho decidiu convocar um Conselho de Ministros extraordinário para o próximo domin­go. Parece que a intenção é explicar melhor o que aí vem. O país agradece. A confusão à volta dos ex­cedentes que há e não há nas contas do Estado não é boa para ninguém.

O Primeiro-ministro tem-se dado ao luxo de falar com uma sinceridade às vezes desarmante, mas alguém devia lembrar-lhe que uma mensagem mal passada, em política, dificilmente se corrige. Passos falou, primeiro, de um desvio colossal nas contas públicas herdadas de Sócrates. Depois, tirou meio vencimento aos portugueses. E seguiu com o corte de dois vencimentos aos funcionários públi­cos.

Arrumado o murro no estômago, o Primeiro-minis­tro veio dizer que a receita extraordinária a que recorreu para cumprir o défice - seis mil milhões das futuras pensões dos bancários - lhe deixou um excedente. Ou uma folga ou almofada, como a opo­sição gosta de dizer. Um excedente, primeiro, de dois mil milhões, e, agora, afinal, de três mil mi­lhões.

Mas se há excedente, porque é que os funcionários públicos não recuperam os seus subsídios, pelo me­nos, o de Natal? - pergunta meio mundo. E Passos Coelho não está a falar claro, como é exigível aos políticos.

Falar de excedentes é um erro de palmatória, que só dá razão aos socialistas, ansiosos por provar que, afinal, havia folga nas contas públicas. E Passos ain­da não disse o óbvio: quando se tem dívidas, não há excedentes! Há dívidas! E começar por pagá-las é o primeiro passo para endireitar a espinha e recupe­rar credibilidade.

A alternativa, a muito breve prazo, seria, para mui­tos, não pagar subsídios nem salários. Alguém explique ao Governo que risque do mapa a palavra "excedentes", pois "eles" não existem. Quando a dor aperta, falar claro é, ainda, mais vital!!!

Mais do mesmo III

Pedro Nuno Santos, deputado, vice-presidente da bancada socialista, propõe que ameacemos os nossos credores externos, que ela acha serem so­bretudo bancos alemães, com não pagar as dívidas. Em pânico, os credores logo nos dariam facilidades, aliviando a austeridade. O presidente da bancada do PS não se demarcou claramente desta proposta, que aliás está em sintonia com o tema central do parti­do: diminuir a austeridade.

É pena que as consequências de tal ameaça e, no limite, de não pa­garmos as dívidas aos credores externos, não sejam propriamente menos austeridade. Se Portugal tomasse tal posição, suspendia-se a vinda do dinheiro da troika. E ficava fechado o já muito difícil e caro acesso a empréstimos externos. Não poderíamos, então, financiar o excesso daquilo que ainda gastamos acima do que pro­duzimos - cerca de 8% do PIB.

Ah! faltava referir um pormenor de pouca importância para o Sr. Pedro Santos, secundado esta semana pelas iluminadas afirmações do ex-PM, Engº José Sócrates:
o Estado não poderia pagar boa parte dos salários e pensões. Os bancos faliam. A economia entraria em total colapso, com o PIB a cair à volta de 40%, as pessoas perderiam cerca de 50% do valor patrimonial detido!!!

Que importa? É esta "redução" de austeridade que o referido deputado quer? Pelos vistos o PS não aprendeu nada com os últimos anos da desastrada governação? Há alguém que lhes explique, p.f.?....

quinta-feira, 1 de dezembro de 2011

Mais do mesmo II



Não pude deixar de sorrir quando, há dias, vi uma notícia de primeira página sobre o ministro que andava de vespa que se deixou seduzir pelo conforto de um carrão de luxo.


Tinha nessa mesma manhã ouvido o desmentido indignadíssimo do gabinete do ministro, amplamente difundido pela Cibéria via facebook e blogues: que não, que não foi o ministro que pediu a viatura, que a coisa já estava pedida pelo antecessor, que se limitou a recebê-la da central de compras do Estado em substituição da que lhe fora destinada, a qual, como os iogurtes, tinha já passado de prazo e ameaçava envenenar!!!


Pois tal desmentido não se substituiu à notícia bombástica da troca da vespa pelo carrão. Como era, aliás, previsível. O episódio, em si mesmo, não vale um caracol. A não ser para provar que medidas que se tomam (como a de proibir gravatas para poupar energia) ou imagens que se querem passar (chegar de vespa ao conselho de ministros) colhem a simpatia dos gestos populistas. Mas como todos os populismos e demagogias viram-se mais cedo que tarde contra quem as utiliza!


Recorda-se o desmentido e a indignação dos apaniguados e não há como não perguntar: mas quem semeia estes ventos pode indignar-se pela tempestade que aí vem!?....

Mais do mesmo

António José Seguro defendeu ontem que o corte no subsídio de Natal deste ano era evitável se se recorresse à transferência dos fundos de pensões da Banca.

Seria realmente bom que tal fosse evitável, mas nunca com esta proposta de solução. Seguro mostra não estar à altura de quem aspira ser Primeiro Ministro. Numa situação tão adversa, pretender manter a linha da cosmética contabilista histórica em Portugal, como solução para um problema orçamental estrutural.

É de uma gritante irresponsabilidade e incompetência. Estas operações, deviam ser neutrais do ponto de vista do défice orçamental pois não só transferem em simultâneo activos, como elevadas e suicidas responsabilidades financeiras presentes e futuras.

Foi o continuado recurso a este tipo de expediente que permitiu a permanente camuflagem de décadas de despesismo público e gestão danosa, que nos lançaram na actual situação financeira e por consequência económica.

Todos - e aqui não há inocentes nos PS, PSD e CDS - os políticos que tomaram essas decisões desastrosas, é que são os verdadeiros culpados de todos estes sacrifícios, com aumento de impostos, cortes sem precedentes nas regalias sociais e nos direitos que julgávamos adquiridos.

O que posso afirmar a José António Seguro, é que, os sacrifícios são inevitáveis. Não tenho é a certeza que as actuais medidas de austeridade preconizadas nos vão levar a bom porto. No entanto, tenho três certezas:

1-Não é com as operações de cosmética do défice propostas por Seguro que vamos lá, definitivamente;

2-Os sacrifícios não deveriam recair sempre sobre os mesmos, invariavelmente;

3-Por uma vez, ao menos, deveriam ser apurados os responsáveis pela situação em que nos encontramos.



Mas não tenho muitas esperanças....estamos em Portugal e ninguém aprende com os erros passados!

domingo, 27 de novembro de 2011

Is this really the end?

EVEN as the euro zone hurtles towards a crash, most people are assuming that, in the end, European leaders will do whatever it takes to save the single currency. That is because the consequences of the euro’s destruction are so catastrophic that no sensible policymaker could stand by and let it happen.(...) This cannot go on for much longer. Without a dramatic change of heart by the ECB and by European leaders, the single currency could break up within weeks.(...) Can anything be done to avert disaster? The answer is still yes, but the scale of action needed is growing even as the time to act is running out. The only institution that can provide immediate relief is the ECB. As the lender of last resort, it must do more to save the banks by offering unlimited liquidity for longer duration against a broader range of collateral. Even if the ECB rejects this logic for governments—wrongly, in our view—large-scale bond-buying is surely now justified by the ECB’s own narrow interpretation of prudent central banking. (...)





sexta-feira, 25 de novembro de 2011

Austeridade é receita para suicídio económico?


O prémio Nobel da Economia em 2001 e antigo vice-presidente do Banco Mundial, Joseph Stiglitz, afirmou na quinta-feira que as políticas de austeridade constituem uma receita para "menos crescimento e mais desemprego". Stiglitz considerou que a adopção dessas políticas "correspondem a um suicídio" económico.

......

"Em economia, há um princípio elementar a que se chama efeito multiplicador do orçamento equilibrado: se o governo sobe os impostos mas, ao mesmo tempo, gasta o dinheiro que recebe dos impostos, isto tem um efeito multiplicador sobre a economia", explicou, apresentando a sua receita para sair da crise.

sexta-feira, 18 de novembro de 2011

Anedota do dia...

Passos Coelho propõe:


Vitor, que tal enviarmos as Boas Festas a todos os Contribuinte, desejando um Feliz e Próspero Ano de 2012?

quinta-feira, 17 de novembro de 2011

Uma outra forma de dizer as "coisas"



"A trapeira do Job

Isto que eu vou dizer vai parecer ridículo a muita gente.

Mas houve um tempo em que as pessoas se lembravam, ainda, da época da infância, da primeira caneta de tinta permanente, da primeira bicicleta, da idade adulta, das vezes em que se comia fora, do primeiro frigorífico e do primeiro televisor, do primeiro rádio, de quando tinham ido ao estrangeiro.

Houve um tempo em que, nos lares, se aproveitava para a refeição seguinte o sobejante da refeição anterior, em que, com ovos mexidos e a carne ou peixe restante se fazia "roupa velha". Tempos em que as camisas iam a mudar o colarinho e os punhos do avesso, assim como os casacos, e se tingia a roupa usada, tempos em que se punham meias solas com protectores. Tempos em que ao mudar-se de sala se apagava a luz, tempos em que se guardava o "fatinho de ver a Deus e à sua Joana".

E não era só no Portugal da mesquinhez salazarista. Na Inglaterra dos Lordes, na França dos Luíses, a regra era esta. Em 1945 passava-se fome na Europa, a guerra matara milhões e arrasara tudo quanto a selvajaria humana pode arrasar.

Houve tempos em que se produzia o que se comia e se exportava. Em que o País tinha uma frota de marinha mercante, fábricas, vinhas, searas.

Veio depois o admirável mundo novo do crédito.

Os novos pais tinham, como filhos, uns pivetes tiranos, exigindo malcriadamente o último modelo de mil e um gadgets e seus consumíveis, porque os filhos dos outros também tinham. Pais que se enforcavam por carrões de brutal cilindrada para os encravarem no lodo do trânsito e mostrarem que tinham aquela extensão motorizada da sua potência genital. Passou a ser tempo de gente em que era questão de pedigree viver no condomínio fechado e sobretudo dizê-lo, em que luxuosas revistas instigavam em couché os feios a serem bonitos, à conta de spas e de marcas, assim se visse a etiqueta, em que a beautiful people era o símbolo de status, como a língua nos cães para a sua raça.

Foram anos em que o campo se tornou num imenso resort de turismo de habitação, as cidades uma festa permanente, entre o coktail party e a rave. Houve quem pensasse até que, um dia, os serviços seriam o único emprego futuro ou com futuro.

O país que produzia o que comíamos ficou para os labregos dos pais e primos parolos, de quem os citadinos se envergonhavam, salvo quando regressavam à cidade, vindos dos fins de semana com a mala do carro atulhada do que não lhes custara a cavar e, às vezes, nem obrigado.

O país que produzia o que se podia transaccionar, esse, ficou com o operariado da ferrugem, empacotados como gado em dormitórios e que os víamos chegar, mortos de sono logo à hora de acordarem, as casas verdadeiras bombas relógio de raiva contida, descarregada nos cônjuges, nos filhos, na idiotização que a TV tornou negócio.

Sob o oásis dos edifícios em vidro, miragem de cristal, vivia o mundo subterrâneo de quantos aguentaram isto enquanto puderam, a sub-gente.

Os intelectuais burgueses teorizavam, ganzados de alucinação, que o conceito de classes sociais tinha desaparecido. A teoria geral dos sistemas supunha que o real era apenas uma noção, a teoria da informação substituía os cavalos-força da maquinaria industrial pelos megabytes de RAM da computação universal. Um dia, os computadores tudo fariam, o ser humano tornava-se um acidente no barro de um oleiro velho e tresloucado que, caído do Céu, morrera pregado a dois paus, e que julgava chamar-se Deus, confundindo-se com o seu filho unigénito e mais uma trinitária pomba.

Às tantas, os da cidade começaram a notar que não havia portugueses a servir à mesa, porque estávamos a importar brasileiros, que não havia portugueses nas obras, porque estávamos a importar negros e eslavos.
A chegada das lojas dos trezentos já era alarme de que se estava a viver de pexibeque, mas a folia continuava. A essas sucedeu a vaga das lojas chinesas, porque já só havia para comprar «balato». Mas o festim prosseguia e, à sexta-feira, as filas de trânsito nas cidades eram o caos e, até ao dia quinze, os táxis não tinham mãos a medir.

Fora disto, os ricos, os muito ricos, viram chegar os novos ricos. O ganhão alentejano viu sumir o velho latifundário absentista, trocado pelo novo turista absentista com o mesmo monte, mais a piscina e seus amigos, intelectuais claro, e sempre pela reforma agrária e vai um uísque de malte, sempre ao lado do povo e já leu o New Yorker?

A agiotagem financeira essa ululava. Viviam do tempo, exploravam o tempo, do tempo que só ao tal Deus pertencia mas, esse, Nietzsche encontrara-o morto em Auschwitz. Veio o crédito ao consumo, a conta-ordenado, veio tudo quanto pudesse ser o ter sem pagar. Porque nenhum banco quer que lhe devolvam o capital mutuado quer é esticar ao máximo o lucro que esse capital rende.

Aguilhoando pela publicidade enganosa os bois, que somos nós todos, os bancos instigavam à compra, ao leasing, ao renting ao seja como for desde que tenha e já, ao cartão, ao descoberto autorizado.
Tudo quanto era vedeta deu a cara, sendo actor, as pernas, sendo futebolista, ou o que vocês sabem, sendo o que vocês adivinham, para aconselhar-nos a ir àquele balcão bancário buscar dinheiro, vender-mo-nos ao dinheiro, enforcar-mo-nos na figueira infernal do dinheiro. Satanás ria. O Inferno começava na terra.

Claro que os da política do poder, que vivem no pau de sebo perpétuo do fazear arrear, puxando-os pelos fundilhos, quantos treparam para o mando, querem a canalha contente. E o circo do consumo, a palhaçada do crédito servia-os. Com isso comprávamos os plasmas mamutes onde eles vendiam à noite propaganda governamental, e nos intervalos, imbelicidades e telefofocadas que entre a oligofrenia e a debilidade mental a diferença é nula. E contentes, cretinamente contentinhos, os portugueses tinham como tema de conversa a telenovela da noite, o jogo de futebol do dia e da noite e os comentários políticos dos "analistas" que poupavam os nossos miolos de pensarem, pensando por nós.

Estamos nisto.

Este fim de semana a Grécia pode cair. Com ela a Europa. Mas que interessa? O Império Romano já caiu também e o mundo não acabou. Nessa altura, em Bizâncio, discutia-se o sexo dos anjos. Talvez porque Deus se tivesse distraído com a questão teológica, talvez porque o Diabo tenha ganho aos dados a alma do pobre Job na sua trapeira. O Job que somos grande parte de nós."

Publicada por

José António Barreiros

terça-feira, 9 de agosto de 2011

Não são anarquistas, são os contagiados pela crise



A violência que alastra pelos bairros de Londres apresenta como denominador comum jovens, de caras tapadas com lenços e alguns deles trajando de negro. O suficiente para um dos nossos canais de televisão ter alvitrado, na tarde de ontem, que eram anarquistas. Valha-nos Santa Engrácia! Quanto à violência, essa, tem sido a típica dos motins em meios urbanos: incêndios e pilhagens num toca e foge difícil para as forças policiais.


Em primeiro lugar, é preciso recordar que a polícia londrina ainda ostenta a fama de ser bem mais preventiva que repressiva. Podemos, deste ponto de vista, estar descansados em matéria de uso relativo da força. Só não terá ideia disto quem nunca passou um fim-de-semana na capital inglesa.


Em segundo lugar, é preciso recordar que a Inglaterra é um grande país de acolhimento de emigrantes, incluindo compatriotas nossos, e que Londres é verdadeiramente exponencial na exibição que faz dessa combinação de raças, credos e modos de vida. Uma combinação luxuriante em tempos de vacas gordas mas que rapidamente pode descambar em pequenos ódios de estimação capazes de alimentar todas as rixas e descambar mesmo em batalhas campais quando o posto de trabalho passa a ser disputado como se fosse o último lugar à mesa e as regalias do modelo social europeu vão desaparecendo do mapa desta terra prometida.


Sejamos, pois, prudentes. Londres é já ali... O modo como desordens sociais alastram rapidamente em grandes centros urbanos como Londres ou Paris ou Madrid tem dado pano para mangas nas mãos de alguns alfaiates da análise política sempre predispostos a etiquetar tudo e todos. E também a retirar conclusões susceptíveis de alinhar mundividências, geralmente moralistas e sobretudo convenientes a uma certa ideia superior de eurocentrismo. Gente que pretende resolver a intrincada equação dos imigrantes exclusivamente à custa das necessidades dos que chegam sem cuidar de conferir quanto os europeus se serviram deles para garantir superiores padrões de vida, rejeitando trabalhos sujos, precários e duros.


Quando a violência principiou em Tottenham, há três dias, em causa não parecia estar nenhum dos factores sociais negativos da crise, mas, passados três dias, já ninguém acredita que os incêndios, as pilhagens, os feridos e os detidos continuem a alastrar apenas por efeito de um confronto meio anarquista entre jovens e polícias.


Quem assim pensar não irá certamente a tempo de contribuir positivamente para que a crise económico-financeira não contamine os tecidos sociais do multiculturalismo europeu."


Manuel Tavares, in "Jornal de Notícias" de 09/08/2011.

sexta-feira, 5 de agosto de 2011

A gravata...

O acto de abolir as gravatas nos Ministérios de Assunção Cristas não se traduz apenas num acto de se poder andar nos Ministérios sem gravata. É coisa muito mais transcendente. O novo abolicionismo passou a ser um acto "que se poderá traduzir na emergência de novas masculinidades, essas sim fundamentais para mudar de paradigma".

Em itálico, palavras de Elza Pais, Deputada e Doutoranda na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa na área da violência doméstica.

Por mim, fui mesmo violentado pela Doutoranda. Fui e continuo a ser. Continuo sem perceber a grandiosidade da frase!...

Por mim, não alcanço a grandiosidade da medida tomada. Termino até com um comentário que um Cliente proferiu numa recente reunião de trabalho que tivemos, a propósito desta alteração:

"A medida foi muito bem vinda, de facto o Ministério da Agricultura começou a trabalhar de uma forma mais desenvolta e eficaz! Pois consta que as senhoras - a coberto dos mesmos argumentos - também foram aconselhadas a prescindir das blusas e portanto aquilo agora é só trabalhar!..."

quarta-feira, 3 de agosto de 2011

Exames, um bicho antidemocrático!

O ministro Nuno Crato já anunciou que irá reforçar os exames ao longo do percurso escolar dos alunos.


Completamente de acordo. À distância constato que o nível de exigência de estudo e de trabalho tem sido reduzido de forma drástica nos últimos anos - seguramente 10 anos - em clara oposição com uma aprendizagem que se deseja responsável e sólida!


Mas alguém se admira com as críticas do Bloco de Esquerda e do PCP? O Bloco de Esquerda argumenta que os exames mostram "falta de confiança" no trabalho realizado pelos professores ao longo do ano. O PCP afirma que a "injustiça" dos exames é "evidente" enquanto o Governo não puder garantir "condições iguais", transformando "escolas em centros de formação profissional" e professores em "treinadores" de alunos para responder aos exames.


Argumentos próprios de quem defende o nivelamento por baixo. A ideologia do facilitismo provou o pior.


Agora é tempo de mudar de vida. Mais do que nunca precisamos de um sistema de ensino que ajude a preparar os jovens para os desafios do futuro. Não basta fazer contas de somar com máquina de calcular. O que precisamos, mesmo, é de alterar métodos de trabalho, incutir exigência e empenho e promover uma cultura de responsabilidade. E neste caso não há inocentes...a começar pelos sucessivos governos, passando pelos professores e alunos e terminando nos pais!

terça-feira, 26 de julho de 2011

onde está o dinheiro?

1.Achei muito curiosa, por diversos motivos que a seguir explanarei, a posição publicamente manifestada por alguns banqueiros da nossa praça, reivindicando o pagamento das dívidas de que são credores perante o Estado e que este terá acumulado ao longo dos últimos anos.


2.E achei curiosa, em 1º lugar pela forma como foi manifestada essa posição, a qual poderá levar algumas pessoas menos prevenidas a crer que o Estado terá utilizado o crédito bancário contra a vontade dos bancos, o que seria no mínimo surpreendente...não creio que tal tenha sucedido, os bancos financiaram o Estado porque quiseram, porque acharam na altura que seria bom negócio, ninguém lhes terá imposto tal crédito à força...


3.Em 2º lugar, porque não me recordo de uma posição destas dos bancos nos últimos anos, em especial nos últimos 6 em que eles foram especialmente pródigos em conceder crédito ao Estado, enchendo os seus balanços com “toneladas” de dívida pública, crédito a empresas públicas e a parcerias público-privadas...


4.Houve mesmo alguns que ainda não há muito tempo elogiaram publicamente a política de grandes obras públicas, dizendo que era benéfica para o desenvolvimento do País – e que, a ter continuidade, teria levado o Estado a endividar-se ainda mais pesadamente junto da banca...


5.Em 3º lugar, porque as dívidas do Estado perante estes bancos têm, como quaisquer outras, prazos de vencimento, que o Estado não poderá deixar de cumprir, sob pena de ser considerado em “default”...assim aos bancos basta-lhes aguardar pelo vencimento das dívidas do Estado, exigir o reembolso e fica satisfeita a sua vontade...


6.Em 4º lugar porque o Estado não deve apenas aos bancos , também deve às empresas não financeiras – industriais (de construção com especial destaque), comerciais e de serviços – e nestes casos sim, o Estado tem acumulado atrasos de pagamento que são imorais e altamente perversos para o funcionamento normal da actividade económica, gerando fenómenos de endividamento em cadeia (efeito dominó) e arrastando não poucas empresas para a insolvência...7


7.Os bancos poderiam ter-se referido a esta última situação, que também os afecta, pois as dificuldades financeiras das empresas decorrentes dos atrasos do Estado acabam também por se reflectir na sua relação com os bancos, dificultando o cumprimento das suas obrigações financeiras...


8.Em 5º lugar, porque as reclamações dos banqueiros contrastaram com as declarações do Governador do BdeP que aconselhou os bancos a desfazerem-se de activos como forma de reduzir a sua alavancagem e libertarem recursos para a concessão de crédito à economia...


9.Em 6º e último lugar porque eles não ignoram que o Estado, ainda que quisesse pagar aos bancos tudo o que lhes deve nesta altura...não teria obviamente dinheiro para isso! Só se os mesmos bancos lhe emprestassem para ele lhes pagar de volta...


10.Muito curiosa mesmo esta posição dos banqueiros, depois de anos de silêncio...o que os terá movido a manifestar tal posição? Saberão que existe dinheiro escondido nalgum lado?

segunda-feira, 25 de julho de 2011

Ligações perigosas...

Que diferença faz pagar com bilhetes para ir ao futebol ou com um “curso de formação” numa ilha paradisíaca do Pacífico? A razão é a mesma. O suborno e a prescrição de medicamentos.



Os incentivos e os prémios é que variam. As viagens são um esquema há muito conhecido. Das playstations confesso que nunca tinha ouvido falar. Deve ser uma inovação. Para quê prometer muito se quem recebe se contenta com pouco.


É uma vergonha. E sobre o sancionamento destes crimes nem vale a pena dizer nada…

sábado, 23 de julho de 2011

Execução orçamental até Junho: cenário de RISCO, para o cumprimento do défice...

1.Com a divulgação dos dados da execução orçamental até Junho,começa a perceber-se que a redução do défice das Administrações Públicas (Central, Regional e Local) para 5,9% do PIB constitui uma tarefa carregada de RISCOS...


2.Com efeito, concluiu-se agora que a “espectacular “ redução do défice das Administrações Centrais até Maio, reportada pelo anterior Governo no último dia do mandato – de 89,3% (!) com referência ao mesmo período de 2010 – era não apenas “espectacular” mas também virtual...


3.Até Junho, com base em dados bem mais realistas, constata-se uma redução do défice das Administrações Centrais de 33,8% - podendo por exemplo referir-se que só em Junho foram contabilizados encargos com a dívida pública de quase 3 vezes o montante total que tinha sido contabilizado de Janeiro a Maio...até Maio eram € 870 milhões (a famosa técnica de empurrar os juros para a frente...), até Junho são já € 3.008 milhões e mesmo assim menos de 50% do montante orçamentado para o ano (46,7%)...


4.Este ritmo de redução do défice, de 33,8%, caso fosse mantido até final do ano propiciaria um défice da ordem de 6,5% do PIB ou seja 0,6% acima do objectivo...


5.Considerando que a receita do novo imposto extraordinário a arrecadar em 2011 será de € 850 milhões, um pouco menos de 0,5% do PIB, temos pois o objectivo do défice quase à vista...mas muito “à pele”!


6.Mas há que ter em conta que a hipótese de manutenção do ritmo de redução do défice de 33,8% até final do ano é optimista, uma vez que temos estado a assistir a uma rápida desaceleração do crescimento da receita fiscal.


7.Basta dizer que até final de Abril a receita fiscal do Estado crescia 14,9%, até final de Junho a taxa de crescimento já caiu para 5,3%... em dois meses apenas uma desaceleração brutal...


8.E nada nos deverá surpreender que a receita fiscal até ao final do ano, sem considerar o efeito do novo imposto extraordinário, continue a desacelerar como consequência da contracção da actividade económica...


9.Configura-se assim um cenário em que muito provavelmente o Governo terá que lançar mão de medidas especiais de contenção da despesa primária durante o 2º semestre, para evitar uma derrapagem no cumprimento do objectivo de 5,9% do PIB, que seria, manifestamente, a “morte do artista”...


10.Temos assim um cenário de alto RISCO, em que toda a atenção será pouca...percebendo-se também melhor o voto contra o novo imposto extraordinário por parte do PS, uma vez que a consideração do RISCO é qualquer coisa que tem estado sempre ausente nos cenários ROSA...

quinta-feira, 21 de julho de 2011

Aumentos dos preços dos transportes: imprescindíveis, mas é preciso também um PAI...

1.O novo Governo lá vai tomando as medidas previstas no acordo com FMI e U. Europeia, chegando agora a vez dos preços dos transportes públicos, depois do anúncio do imposto extraordinário sobre rendimentos englobados no IRS.


2.Este aumento do preço dos transportes públicos impressiona pela sua expressão relativa – entre 15 a 20% - mas é preciso reconhecer que chega com um enorme atraso, depois do anterior governo ter deixado irresponsavelmente o sector dos transportes públicos a um estado de penúria financeira dificilmente imaginável...


3.Este aumento, apesar de muito duro é também e muito provavelmente insuficientíssimo para resolver o problema do brutal desequilíbrio de exploração e o estrangulamento financeiro a que chegaram as empresas públicas deste sector.


4.Segundo números recentemente divulgados, os prejuízos das empresas públicas do sector dos transportes em 2010 terão ultrapassado os € 1.000 milhões, um valor “record” mas provavelmente subavaliado, denunciando uma situação caótica que tem exigido já, em diversos casos – Refer e Metro do Porto pelo menos – a intervenção directa do Tesouro para solver os compromissos financeiros das empresas, uma vez que o crédito bancário lhes foi cortado...


5.Essa intervenção directa do Tesouro representa um retrocesso de cerca de 25 anos, pois foi em 1986, que as operações de financiamento directo do Tesouro às empresas públicas foram suspensas, passando essas empresas a financiar-se no mercado como as demais.


6.Por isso digo que este aumento, apesar de muito elevado, será ainda insuficiente para ultrapassar os enormes desequilíbrios de exploração e corrigir os níveis brutais de endividamento que as empresas públicas deste sector foram acumulando ao longo de anos a fio...a ver vamos!


7.Há todavia um outro aspecto que não pode ser escamoteado e ao qual o Governo terá de prestar a máxima atenção: estas empresas e em especial os seus dirigentes e quadros superiores não podem continuar a fazer de conta que nada se passa, gastando rios de dinheiro em despesas supérfluas, nomeadamente automóveis e cartões de crédito para uso pessoal, bem como distribuindo benefícios injustificados a empregados (como seja a utilização gratuita do serviço pelos mesmos e seus familiares próximos e remotos)...


8.Trata-se de uma questão de elementar moralidade, que requer um plano também duro e inflexível de aplicação de medidas de poupança, a começar por cortes drásticos nas mordomias que têm sido distribuídas a esmo pelos quadros dirigentes dessas empresas.


9.É indispensável pois que o Governo não perca tempo a definir um Plano de Austeridade Interno (PAI) para estas empresas que contribua, para além dos aumentos dos preços, para o objectivo de reduzir os desequilíbrios económicos e a insuportável dependência financeira das mesmas...

segunda-feira, 18 de julho de 2011

Imposto Extraordinário....para os mesmos de sempre!

Segundo o Ministro das Finanças, três milhões de famílias (65%) não serão "afectadas" pelo imposto extraordinário, 80% dos pensionistas não serão afectados pelo imposto extraordinário, 10% dos trabalhadores dependentes irão pagar 60% da receita prevista de 1025 milhões de euros do extraordinário imposto.

Não é um retrato de justiça fiscal, nem social, devia aliás ser abolida a palavra “justiça” quando se fala em sobretaxas, impostos extraordinários ou as mil e uma formas de ir cortando os proventos de quem (ainda) trabalha, esforçando-se por não se afundar em dívidas.

É o retrato de um país cada vez mais pobre, serão cada vez menos os que “podem” pagar, e cada vez mais os que dependem de salários mínimos, de pensões mínimas, de subsídios que escasseiam, de solidariedades que não chegam para todos.

Um duro retrato social. Ao que chegámos.